08 de janeiro de 2018

Novo mundo compartilhado

"Em 2025, ter um carro será como ter um DVD hoje”. A visão do CEO da Lyft, maior concorrente do Uber, John Zimmer, reflete um cenário em que a posse do automóvel está sendo cada vez mais questionada. No Brasil, segundo pesquisa da Delloite, 62% dos jovens não acham mais necessário possuir um veículo no futuro. Lá fora, onde novos serviços de mobilidade compartilhada funcionam há mais tempo, a mudança de comportamento já começou a acontecer. No Reino Unido, por exemplo, um terço das famílias jovens (com até 34 anos) não tem veículo em casa. Um aumento de 20% em 18 anos.

Isso acontece porque alternativas ao carro próprio estão crescendo em ritmo acelerado. Para alguns especialistas do setor automotivo, os serviços de carona e carsharing serão apenas as primeiras etapas de uma grande revolução que vai culminar no carro autônomo. A mobilidade está cada vez mais sendo encarada como um serviço e, por isso, a conveniência e a facilidade de acesso são determinantes para a escolha de um modal.

É esse diferencial que as empresas de carsharing estão tentando potencializar em todo o mundo. Utilizando das mais novas tecnologias digitais para tornar a mobilidade mais inteligente e resolver problemas como a ociosidade dos veículos, os altos custos de um carro próprio e a poluição causada pelos veículos à combustão. Para se ter uma ideia, os carros ficam parados, em média, 95% do tempo. Ou seja, durante esse período, ele está totalmente ocioso, apenas ocupando espaço em garagens, estacionamentos ou vagas direcionadas.

Sem dúvidas, o carsharing é um tendência em expansão. Vancouver, no Canadá, tem mais de 3 mil carros compartilhados, que estão sendo utilizados por 2,5 milhões de pessoas. Quatro empresas operam o serviço na cidade e ele vem ganhando cada vez mais adeptos. Enquanto, em 2013, 13% dos adultos utilizavam o carsharing, atualmente, esse número chega a 26%.

Já em Montreal, as discussões estão mais avançadas. O plano de mobilidade da cidade está estudando como integrar o carsharing aos veículos elétricos e autônomos. A ideia é ter diversos polos de mobilidade, com ofertas complementares. Em um raio de 100 metros, o usuário vai ter a chance de encontrar carro compartilhado, bike parking, ônibus, metrô, e etc. Um futuro multimodal que já está sendo levado em consideração.

Outro case interessante está acontecendo na Cidade do México. Com 9 milhões de carros circulando, a região tem um dos piores congestionamentos do mundo (a população passa, em média, 3 horas por dia dentro do carro). O Carrot, sistema de carsharing da cidade, possui 110 veículos compartilhados e as taxas de avarias não chegam a 1%. “Nós confiamos na sociedade e eles nos pagaram com respeito”, disse Jimena Pardo, CEO da Carrot, em evento realizado no Canadá. Recentemente, uma pesquisa realizada com o usuários do serviço, revelou que 20% venderam os seus carros, 74% adiaram a decisão de comprar um carro e 30% estão dirigindo menos.

Um comportamento parecido também está sendo compartilhado pelos usuários da Zipcar, nos Estados Unidos. Em pesquisa feita pela companhia, 80% dos "zipsters" revelaram que não possuem carro próprio e 43% disseram que venderam seu veículo após começarem a utilizar o serviço.

Levantamentos globais indicam que esses não são casos isolados. Um estudo do BGC prevê que, em 2021, 35 milhões de pessoas serão usuárias de car sharing na Europa, Ásia e América do Norte, o que vai reduzir as vendas de veículos no mundo em 550 mil unidades e causar uma perda de receita para as montadoras de 7,4 bilhões de euros (o equivalente a mais de 30,2 bilhões de reais).

Um carro compartilhado pode tirar de 10 a 30 carros das ruas. Segundo especialistas do MIT, quando o carsharing tomar conta das cidades, nós vamos precisar de apenas 20% dos carros que usamos hoje. Já imaginou o impacto disso na estrutura dos espaços urbanos? Isso significa mais espaço para pedestres e ciclistas e uma oportunidade para as pessoas explorarem a cidade de uma nova forma.


Carsharing já é uma realidade no Brasil

O Brasil também já tem seu próprio case de carsharing. A iniciativa é do empresário Leonardo Domingos, que já vinha de uma experiência de aluguel de carros de luxo à frente da LDS Group, e do seu sócio no projeto, Paulo Moura. A proposta da Urbano é diferente das outras empresas que já surgiram no país com projetos de compartilhamento de veículos, garante Moura. “Existem três pontos que diferenciam a Urbano de todas as iniciativas no Brasil: a abordagem como modal de transporte público, a nossa frota e a adoção do modelo de free floating”.

A Urbano oferece seus carros como uma nova opção de transporte público: a nova geração de jovens desacredita a posse e tem o transporte urbano e compartilhado como uma alternativa de deslocamento, muitos trocaram seus carros pelo ônibus ou pela bicicleta. Dessa forma, o carsharing da Urbano é mais uma opção para esses usuários. "Apesar do diferente mindset dessa geração, não é ela o único público da Urbano, mas sim qualquer pessoa que precise de uma mobilidade mais ágil e que acredite tenha parado para pensar nas vantagens do novo modal", destaca Moura. Outro diferencial da Urbano é a frota de veículos oferecida por eles: os veículos são diferenciados e as opções variam entre veículos a combustão e veículos elétricos.

A prática do free floating também pesa na prática: ao contrário das locadoras tradicionais de veículos, que limitam os locais de empréstimo e devolução do carro, a Urbano possibilita que os carros compartilhados sejam locados e deixados em qualquer ponto da cerca eletrônica estipulados por ele. Paulo Moura explica que isso só é possível porque eles trabalham com uma malha de carros conectados, com aplicação mobile, geofencing (conexão entre mapa e objeto) e outras inovações que a Internet das Coisas possibilitou.

O principal desafio do carsharing no Brasil é o mesmo que no resto do mundo, explica Moura. A legislação, a burocracia causada falta de apoio para a pesquisa e o desenvolvimento desses projetos aqui. Apesar disso, a perspectiva de crescimento é boa: “O mercado de carsharing no Brasil vai ter um grande crescimento nos próximos anos. Nossas projeções indicam um potencial para mais de 30.000 carros compartilhados no país. Considerando exemplos, como na Europa e Canadá, uma cidade com 1,5 milhão de habitantes comporta até 3.000 carros. E por solucionar o problema do trânsito e da poluição, esse tipo de modal tem o ambiente perfeito para se desenvolver por aqui. Somos líder nesse novo mercado e temos a projeção de ter 1.200 carros em São Paulo em menos de 3 anos”, acredita Moura.

 

MODELOS DE CARSHARING

>> Round trip carsharing ou Two-way carsharing (ou Return Carhsaring): membros de uma organização pública ou privada podem emprestar carros em locais designados e devem retorná-los ao mesmo local após o uso.

>> One-way carsharing: como o anterior, mas permite a devolução em quaisquer outras estações da rede de carsHaring (o mesmo que acontece com os empréstimos de bicicleta atuais, por exemplo)

>> Free floating carsharing: operadores da frota de carros compartilhados cobram por minuto de utilização e veículos podem ser locados e deixados em qualquer ponto da cidade.

>> Ridesharing/lifsharing: indivíduos dividem uma corrida para o mesmo destino e dividem os custos da viagem. Há quem diga que o Uber é um serviço de Táxi e que o Uberpool é um serviço de carsharing.


 

Fonte: PARAR Fleet Review - 12ª Edição
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